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Hyperpop e o desconforto do experimental: narrativas queer, não-coisas e novos códigos para a realidade

  • Foto do escritor: Pedro Assis
    Pedro Assis
  • 13 de nov. de 2025
  • 10 min de leitura

Atualizado: 11 de dez. de 2025

Em alguma trend ou comunidade digital criada na pandemia, nas plataformas de streaming, em discussões acaloradas nas redes sociais ou em alguma manifestação do fenômeno que foi o Brat Summer em 2024, você já deve ter ouvido falar em algum momento do famigerado hyperpop


Nem sempre tão carinhosamente apelidado de “bate-panela” pelos não-íntimos, o termo - que na verdade é bem recente, assim como sua popularidade - tem começado a sair de sua bolha, conquistando espaços em festivais, feeds e corações. A fama, no entanto, chega com muitas tensões, desafiando gostos tradicionais e sonoridades conhecidas com seu ímpeto experimental.


No artigo de hoje do “Termômetro Musical”, vamos entrar de cabeça nesse fenômeno hiperacelerado que, sem dúvida, está quentíssimo, pegando fogo! Por meio dele, vamos refletir as manifestações subversivas de identidades queer, o desconforto do som experimental em uma realidade submissa e as novas possibilidades de códigos para preencher nossas existências. 


Para trabalhar com a gente nesse remix, Byung-Chul Han e Vilém Flusser são os autores da vez. Sinta o agito dos sintetizadores crescendo, pegue seu fone e bora pensar o hyperpop!

Músicas para entrar no clima:


Antes de mais nada, o que é hyperpop?


De modo grosseiro e beeem resumido, o hyperpop é um gênero musical que tem como principal característica, assim como a própria palavra sugere, a extrapolação do pop tradicional. 


Enquanto o pop que conhecemos, das grandes divas que movem as massas e lotam praias, geralmente se caracteriza por conter elementos, arranjos e estruturas que agradem o maior número de pessoas possível, o hyperpop se constitui precisamente no que é inesperado, transgressivo e incômodo para o ouvido não treinado.


Tentar definir exatamente as características que compõem esse gênero é em si um ato contraditório, já que ser difícil de definir ou explicar é precisamente seu aspecto central. No entanto, podemos destacar alguns elementos que aparecem com frequência em muitas músicas classificadas como hyperpop:


  • Sons digitais e/ou artificiais, ou seja, que não podem ser produzidos puramente por instrumentos convencionais;

  • Vocais altamente processados, com vozes artificiais, distorcidas e muito autotune;

  • Produção maximalista, repleta de efeitos sonoros, contrastes e diferentes estilos e gêneros;

  • Letras que vão do extremamente subjetivo ao extremamente universal;

  • Tom crítico ou irônico, com muitas referências externas.


Falando um pouquinho de sua história, o termo “hyperpop” começou a ser utilizado por volta de 2014, intrinsecamente ligado ao coletivo e gravadora britânica PC Music, fundada por A.G. Cook (que, não por acaso, foi diretor criativo de longa data de Charli XCX). Artistas como SOPHIE, Hannah Diamond e o próprio Cook já moldavam essa estética que misturava bubblegum pop com sons industriais e noise.


Contudo, o termo só explodiu massivamente em agosto de 2019, quando o Spotify criou a playlist editorial chamada "Hyperpop". Essa playlist foi crucial para solidificar o rótulo, agrupando sob o mesmo guarda-chuva artistas que já exploravam essa estética, como 100 gecs, Charli XCX e a saudosa SOPHIE, definindo uma cena que, até então, vivia fragmentada na internet.


Naturalmente, a validação do gênero, tão marcante por sua subversividade, pelo algoritmo de uma grande plataforma de streaming levanta uma série de outras questões. Definir o hyperpop já é uma tarefa bem complicada por si só, e quando essa tarefa recai sobre uma empresa, que passa a agrupar vários artistas conhecidos, veja bem, pela dificuldade de definir o som que produzem, em uma única playlist de "semelhantes", a existência do termo torna-se polêmica por rotular algo cuja principal característica é ser praticamente impossível de se rotular.


Com isso em mente, alguns artistas rejeitam o termo quando associados a ele, optando por outros como "digicore" ou simplesmente "experimental", outros o abraçam e almejam participar da construção coletiva do significado de hyperpop. É importante ressaltar e não ignorar essas nuances, mas aqui nesse artigo, prosseguiremos falando do hyperpop entendendo-o como um movimento musical orgânico que extrapola as regras de uma playlist e respira transgressividade.


Convergências entre a existência queer e o som experimental


Se o hyperpop é definido pela transgressão das formas, não é nenhuma surpresa que ele tenha se tornado um terreno fértil e um porto seguro para artistas e narrativas LGBTQIA+. O artigo de Silveira e Fernandez (2023), que traz uma rica reflexão sobre esse aspecto e está recomendado no final desse blog, aponta exatamente para essa conexão profunda, sugerindo um “futuro pós-gênero” na música.


Pensemos os vocais, o elemento mais "humano" da música. No hyperpop, eles são intencionalmente artificiais. O uso extremo de autotune e pitch shift (alteração de tom) pode parecer um floreio estético a princípio, mas as possibilidades fomentadas por esses recursos delimitam uma verdadeira ferramenta de construção de identidade. Muitas figuras proeminentes do hyperpop são transgêneros ou não-binárias, e muitos dos artistas alinhados a esse sonoridade, especialmente mulheres trans, historicamente utilizaram essas ferramentas para modular suas vozes, seja para se aproximar de uma feminilidade pop idealizada ou, inversamente, para explodir essa feminilidade em algo completamente novo, sintético e pós-humano.


O domínio "sobre-humano" sobre a própria voz proporcionado pela edição digital do som é um dos grandes trunfos desse gênero que se alinham com as vivências e problemáticas enfrentadas pela juventude queer. Ao transformar a voz em um instrumento de gênero neutro, que pode ser manipulado para assumir timbres masculinos, femininos, graves, agudos, acelerados, distorcidos, robóticos, alienígenas, o estilo hyperpop permite que seus artistas extrapolem percepções binárias de gênero, lidem com a disforia e experimentem radicalmente com um dos rótulos mais rígidos e cruéis da história.


Sendo assim, a identidade, assim como o som, torna-se maleável, fabricada, uma construção deliberada que desafia o "natural" ou o "dado". Entre tantos outros elementos que constituem a sonoridade hyper, o hyperpop oferece um espaço sônico onde a fluidez é a norma e o autêntico é o artificial. O desconforto que o som experimental causa no ouvinte tradicional é perfeitamente análogo ao desconforto que identidades não-normativas causam em uma sociedade cis-heteronormativa.


A euforia da autoconstrução, somada ao caráter transgressor e "indefinível" do gênero, criam pontes que aproximam e expressam a realidade queer de forma única. Entre preconceitos, tabus, violências e apagamentos das forças externas, o hyperpop postula não só um estilo musical, mas uma verdadeira comunidade de pessoas que apreciam o que escapa dos padrões tradicionais e fazem de suas existências um ato de rebelião. Negar ou invalidar a veia queer do hyperpop, portanto, é um atestado direto de que a compreensão sobre esse gênero musical e o que ele representa falhou.

Aqui vai uma recomendação de perfil:


As não-coisas de Byung-Chul Han e a resistência por meio do som


A malícia das coisas provavelmente pertence ao passado. Não somos mais maltratados pelas coisas. Elas não se comportam de forma destrutiva e com resistência. Elas perdem seus espinhos. Não as percebemos em sua alteridade ou estranheza. Isso enfraquece nosso senso de realidade. Acima de tudo, a digitalização intensifica a desrealização do mundo ao descoisificá-lo. Nesse sentido, soa estranha a observação de Derrida de que a coisa é o “completamente outro” (le tout autre), que dita sua “lei” à qual temos que nos submeter. As coisas hoje são bastante submissas. Elas estão sujeitas às nossas necessidades. (HAN, 2022, p. 86-87)


Para adensar nossa reflexão, trazemos agora o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e seu livro "Não-Coisas" (2022) para tentar entender o que, de fato, o hyperpop está provocando nas pessoas em nossa sociedade contemporânea.


Na citação em destaque, Han argumenta que a digitalização "descoisifica" o mundo. As coisas de hoje são "bastante submissas", perderam seus "espinhos", sua "alteridade". Na obra como um todo, o autor discute a perda da resistência do Outro nas coisas que nos cercam. Já não há mais mistério, hostilidade, encanto ou ameaça nos objetos do cotidiano: tudo foi projetado cuidadosamente para caber perfeitamente em nossas necessidades e desejos, atendendo nossos ímpetos pelo tempo que a obsolescência programada codificada em suas constituições permite.


Podemos dizer, então, que vivemos na era do liso: o scroll infinito, as interfaces polidas, a informação que desliza por nós sem atrito. Hoje em dia, quem consegue imaginar a possibilidade de se fascinar com o desconhecido segurando um celular? Todas as informações estão (e precisam estar, segundo nosso tempo dita) disponíveis e podem ser facilmente acessadas. Todo mundo pensa que sabe ou pode saber tudo o tempo todo. As "coisas", então, ficam pelos cantos; ou melhor, abaixo de nós, sustentando um coluna oscilante de egocentrismo em relação à materialidade do mundo e às relações com ele e com outras pessoas.


Nesse contexto de esmorecimento e submissão das coisas delineado por Byung-Chul Han, o hyperpop desponta como uma sonoridade que rejeita a massificação. Em um confronto direto com outros gêneros mais agradáveis, projetados para atrair o maior público possível dentor do que se entende popularmente como "música boa", ele se apropria de elementos tradicionais e os combina com recursos de digitalização para criar um som que constrange. Constrange pois expõe, sem vergonha nenhuma, o quão difícil pode ser lidar com uma coisa que resiste aos nossos sentidos atualmente.


Ele é puro espinho, ele é o som experimental que choca, incomoda e aflinge. Acima de tudo, ele é o som que obriga a parar, a pensar, a processar.


O hyperpop se recusa a ser submisso. Ele é um tipo de som experiemntal que choca, incomoda, aflinge. A produção maximalista, os sons metálicos, os glitches e a estrutura propositalmente caótica quebram ativamente a audição passiva. Ele exige atenção. O hyperpop nos "maltrata", no sentido de Han: ele se apresenta como "completamente outro", forçando-nos a perceber sua "estranheza".


Numa realidade de "não-coisas", onde até a música pode se tornar apenas uma informação digital e submissa, o "bate-panela" se configura como uma forma de resistir. Mais do que desafiar nosso gosto e nosso entendimento do que é bom e ruim, ele se degladia com a lógica algorítmica e contesta o que as plataformas dizem com toda certeza ser uma música boa ou um hit de sucesso. Em última instância, o hyperpop é a insistência no primor materialidade (mesmo que digital) do som, no atrito e no desconforto que nos lembra que estamos vivos, que a realidade é mais do que aquilo que podemos controlar e claro, que a arte ainda pode, sim, ter dentes.


Vilém Flusser, o mundo codificado e a busca por novos sentidos da realidade


Os códigos (e os símbolos que os constituem) tornam-se uma espécie de segunda natureza, e o mundo codificado e cheio de significados em que vivemos (o mundo dos fenômenos significativos, tais como o anuir com a cabeça, a sinalização de trânsito e os móveis) nos faz esquecer o mundo da "primeira natureza". E esse é, em última análise, o objetivo do mundo codificado que nos circunda: que esqueçamos que ele consiste num tecido artificial que esconde uma natureza sem significado, sem sentido, por ele representada. O objetivo da comunicação humana é nos fazer esquecer desse contexto insignificante em que nos encontramos - completamente sozinhos e "incomunicáveis"-, ou seja, é nos fazer esquecer desse mundo em que ocupamos uma cela solitária e em que somos condenados à morte - o mundo da "natureza". (FLUSSER, 2007, p. 88-89)


Para fechar nossa análise, trazemos o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser. Para ele, vivemos em um "mundo codificado". Usamos "artifícios" (como a linguagem, a música, a cultura) para nos comunicar e para dar sentido a uma natureza que, em si, é "sem significado". Em outras palavras, as formas de comunicação e expressão humana preenchem um vazio abissal de um mundo solitário. Os signos, informações e códigos criados pelos humanos visam resistir à tendência entrópica inexorável da natureza.


Nesse contexto, nós tecemos o véu que oculta nossa própria insignificância (pode soar brutal, mas é importante pensarmos sobre isso, sim!). Sendo assim, podemos partir do conceito apresentado por Flusser para dizer que os significados e a materialidade que preenchem a realidade foram, sim, criados historicamente pelas sociedades para dotar a vida de sentido.


Aqui, surge um problema latente que tem sido difícil de ignorar: o mundo codificado atual e a comunicação humana descrita sob a ótica do autor não foram feitas para todo mundo. No véu da "arte, da ciência, da filosofia e da religião" (FLUSSER, 2007, p. 91), a trama simbólica partilhada por todos para esquecer a solidão, ironicamente, renega parte das pessoas a um estado solitário. Manifesto em preconceitos, padrões sociais, normas de gênero (como discutimos anteriormente) e regras a serem seguidas, a realidade construída não foi feita para incluir todos.


Ao tentar romper com os códigos, com aquilo que todos compartilham para consolar a própria existência, as identidades dissidentes extrapolam o véu e ameaçam perturbar a perfeita ordem historicamente construída pela comunicação, religião, arte e tantas outras esferas. Surge a ameaça de expor o que seria o mundo da "primeira natureza", segundo Flusser. Então, vem a exclusão, a rejeição, a invalidação do que resiste, rebela e constrange.


Falamos aqui, de forma bem direta, sobre racismo, misoginia, LGBTfobia, intolerância religiosa e tantas outras formas de preconceito e coerção social. O jogo dos códigos é fundamental para a manutenção da vida humana numa natureza que converge para a entropia, mas ele não é tão gentil quanto promete ser com aqueles que não concordam com o que foi estabelecido.


Retomando a transgressão do hyperpop, o gênero musical que discutimos até aqui é uma sonoridade entrópica, mas não no sentido de nos fazer encarar a falta de sentido da existência. Ele é entrópico pois desmantela o que existe, flerta com o caos e remonta tudo que entendemos e reconhecemos em formas completamente diferentes. O hyperpop propõe novos códigos, novas possibilidades de trama para cobrir o mundo sem deixar ninguém de fora.


Ao usar vocais tão processados que soam robóticos, ao misturar gêneros de forma abrupta e ao abraçar o "ruído", o hyperpop nos lembra que o pop "natural" também é um "tecido artificial" que talvez já não traga mais o acalento necessário para todos. O hyperpop nos força a lembrar, como diz Flusser, que estamos nos comunicando por meio de artifícios. Para nos fazer esquecer da "cela solitária", ele abraça a artificialidade da "segunda natureza" e a ostenta como seu principal recurso. Ele não busca o "natural", o que se mescla com o que está ao nosso redor; ele celebra o sintético, o construído, o fake, criando através deles uma nova dimensão de sentido para a realidade que vivemos, cada vez mais próxima do colapso.


Portanto, o hyperpop não é uma fuga, tampouco uma forma radical de anarquia dos significados. É a criação de novos códigos para preencher a existência. Códigos que admitem abertamente sua própria artificialidade, fazem dela seu principal atributo e, nesse processo, abrem espaço para outras pessoas viverem e se expressarem de forma autêntica no mundo codificado. É, talvez, uma forma mais honesta de comunicação em um mundo digital, que tem tudo a ver com as gerações que estão desabrochando atualmente.


No fim, o hyperpop é mais, muito mais do que um ruído passageiro "gen z". Ele é um sintoma cultural e social potente. Ao abraçar o desconforto, a experimentação e a fluidez, ele oferece não só uma trilha sonora para narrativas queer, mas também uma possibilidade de comunidade mais abrangente, uma forma de resistência filosófica, digamos, contra a submissão das "não-coisas" e uma corajosa reforrmulação dos códigos que usamos para (tentar) entender e conviver com o mundo. 

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Escrito por Pedro Assis (@phmd_assis) 


Aspirante a redator publicitário, amante de jogos online e apaixonado por música - especialmente os infames “bate-panelas”. Vivendo no hyper, mergulhado em tudo que é pop e sempre aberto a descobrir um novo som, dos mais tranquilos aos mais agitados.



 
 
 

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