Rap, feminismo e ativismo negro: disputas de imaginário na mídia e na música - AJULIACOSTA feat. Maria de Lourdes Motter
- Maria Ribeiro

- 19 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
O gênero musical do rap se consolidou em disputas midiáticas em época de silenciamento dando voz a grupos marginalizados, a obra vinda da periferia desconstruía o imaginário popular da música brasileira estilo bossa nova. Dessa forma, o rap foi um território de resistência, um espaço onde as vozes marginalizadas encontraram força para narrar suas próprias histórias. Mas dentro dessa narrativa coletiva, continuamos assistindo silenciamentos, e é sobre eles que eu quero falar hoje no Termômetro Musical. Quer ficar por dentro da cena feminina? Então pega o seu fone e vem com a gente na luta das minas!
Pensando o rap em diálogo com a luta de classes, é impossível não perceber como a cena masculina e a feminina se estruturam a partir de imaginários completamente diferentes: “ o que eles fazem, nós faz ao contrário e assim separamos rappers de meninos” (Ajulia Costa, Poetas no Topo 4). Enquanto o rap masculino ganha visibilidade nacional com letras sobre ostentação, prostituição, status e poder, a cena feminina do rap emerge como denúncia, trazendo à tona questões de gênero, raça e classe que muitas vezes são apagadas pela própria lógica capitalista da indústria cultural.
Músicas para entrar no clima:
Disputa midiática entre a cena feminina e masculina
A cena feminina do rap é hoje uma ferramenta midiática de força e representatividade do feminismo e movimento negro. Partindo dessa ideia, pensando sobre os possíveis caminhos de mobilização ativista e o contexto social vigente, constatamos que não há emancipação feminina plena dentro do capitalismo, assim fica evidente que o discurso de ascensão e sucesso difundido em boa parte do rap masculino está preso a uma contradição, como diria Lu Schievano: “As vezes a gente tem que parar de dançar o quadradinho de oito, e pensar um pouquinho”. Mesmo quando a cena masculina denuncia a desigualdade social, o discurso de “vitória individual” ainda se sustenta sobre a mesma base de competição e consumo que o sistema impõe.
A postura profissional da diva Julia Costa ressoa com a crítica de sua xará: Ana Paula Costa, durante uma entrevista para o portal Alma Preta, em 2020:
"O ponto nevrálgico é que o rap, mesmo sendo um gênero que fala de opressão de classe, continua reproduzindo o apagamento das mulheres negras dentro do próprio movimento, no sentido de não dar visibilidade para as minas que estão escrevendo, que estão produzindo e que estão fazendo um corre ancestral de outras que vieram antes".
Esse questionamento ganha força quando lembramos da recente crítica que a própria Júlia Costa fez em uma de suas músicas, que pode ser interpretada como uma indireta ao grupo Racionais MC’s. Apesar da importância inegável do grupo na construção de uma consciência racial e de classe no Brasil, com versos que marcaram gerações e denunciaram a violência do Estado, a cantora chama atenção para a ausência feminina em seus projetos mais recentes: “Eu vi 'cê rimar que era quebrada e tal, mas 'cês nunca incluíam mulheres. Eu vi 'cê rimar que era pretos no topo, mas nunca incluíam mulheres. Se hip-hop é sobre igualdade, essa porra que você fez nunca foi rap” (Poetas no Topo 4).
O novo projeto dos Racionais MC’s conta com um novo álbum previsto para 2025, contendo 36 faixas e diversos feats. O que chama atenção é que o projeto conta com grandes nomes da música brasileira, sobretudo da cena masculina atual e nenhuma artista feminina. Entre os nomes confirmados estão: “Criolo, Seu Jorge, Ed Motta, Djonga, L7nnon, Hariel, Mc Ig, KayBlack, Kyan, Rincon, Sapiência, Rael, Neguinho do Kaxeta, Yunk Vino, Big da Godoy e Falcão”. Se o rap é espaço de resistência, por que ele ainda não resiste à exclusão das mulheres? Essa contradição revela uma disputa simbólica dentro do próprio movimento: quem tem o direito de narrar a experiência negra?
Aqui vai uma recomendação de podcast sobre o tema!
É nesse ponto que Maria de Lourdes Motter se torna fundamental. A comunicadora fala da mídia como espaço de disputa simbólica, onde os imaginários são construídos, legitimados ou rompidos. Segundo Motter (2004), “a linguagem midiática participa ativamente da produção de sentidos sobre o mundo, definindo o que é visível e o que permanece à margem”. A partir disso, podemos entender o rap como um território comunicacional em constante embate: de um lado, a lógica do mercado, que reforça estereótipos e vende uma masculinidade hegemônica; de outro, as vozes dissidentes, mulheres, negras, periféricas, LGBTQIAP+ que tensionam essas representações e propõem novos imaginários possíveis.
Quando escutamos músicas como Poetisas 3, é possível sentir essa virada estética e política. Ao contrário das letras que objetificam corpos femininos ou reduzem o feminino ao desejo masculino, o rap feito por mulheres constrói uma estética de resistência. As vozes femininas cantam sobre a beleza fora do padrão, sobre corpo, luta, liberdade e amor-próprio como ferramentas políticas. Em um cenário onde a mídia tradicional ainda projeta a mulher negra como hipersexualizada ou submissa, o rap feminino se torna, nas palavras de Motter, um “espaço de criação de novos sentidos sociais”, capaz de “reverter o processo de naturalização dos estereótipos” (MOTTER, 2004).
Por isso, mais do que uma diferença de temas, há uma diferença de perspectiva entre o rap masculino e o feminino. Enquanto muitos artistas homens narram a conquista da riqueza como superação individual, ostentação e, em certos casos, reproduzem visões patriarcais sobre o corpo e o desejo, as mulheres do rap falam da ascensão coletiva, da ocupação dos espaços e da necessidade de existir em meio à violência simbólica e estrutural. Essa distinção ecoa o que o feminismo negro vem dizendo há décadas: não há luta de classe sem luta contra o racismo e o patriarcado.
A crítica de Júlia Costa, portanto, não é um ataque, mas uma provocação política. Ela evidencia que, mesmo dentro dos espaços de resistência, a luta ainda precisa ser plural. O rap, enquanto linguagem e prática comunicativa, pode ser tanto reprodutor de desigualdades quanto instrumento de transformação e é exatamente isso que Maria de Lourdes Motter nos ajuda a compreender: toda forma de comunicação é também uma forma de poder.
Homens não ostentam autoestima, ostentam poder
A pesquisadora Maria de Lourdes Motter ao frisar a comunicação e a cultura como campos de disputa de imaginários, onde diferentes grupos sociais lutam para afirmar suas próprias formas de existir e ser representados, a cena feminina do rap emerge como um espaço de resistência simbólica, que rompe com o padrão estético branco e eurocêntrico consolidado pela mídia hegemônica. Ao celebrar os traços, corpos e vozes das mulheres negras, essas artistas não apenas afirmam sua presença, mas reconstroem referências de beleza, autoestima e pertencimento. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma questão de gênero, mas também de reivindicação racial, uma resposta direta à exclusão e à homogeneização cultural impostas pelos meios dominantes. Nesse processo, o rap feminino torna-se um instrumento de cura coletiva e valorização da identidade negra, produzindo um imaginário em que ser mulher preta é sinônimo de força, criatividade e liberdade.
Assim, pensar o rap feminino é reconhecer uma revolução estética e simbólica em curso. É deslocar o olhar da narrativa dominante para as vozes que antes foram silenciadas. É compreender que o microfone, nas mãos certas, torna-se uma ferramenta de emancipação coletiva, um meio de disputar o imaginário nacional e romper com os padrões que a mídia insiste em perpetuar. É nessa disputa que feminismo e ativismo negro se encontram, reafirmando que a verdadeira ascensão não está no consumo, mas na consciência, na força de uma arte que promove o empoderamento feminino coletivo e plural, capaz de abraçar a diversidade das experiências negras.
Diferente dos homens, as mulheres da cena não ostentam poder, mas sim autoestima, uma autoestima que nasce da representatividade, da valorização de seus corpos, histórias e ancestralidades, transformando o rap em um espelho onde a mulher preta se vê e se reconhece como protagonista.
Quer ler mais sobre? Confira esses textos:
N. 17 (2000): DISCURSO DA PROPAGANDA, TELENOVELA: NOVA LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E PRÁTICAS ESCOLARES
DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. Tradução de Heci Regina Candiani. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.
HOOKS, Bell. Olhares negros: raça e representação. Tradução de Stephanie Borges. 1. ed. São Paulo: Elefante, 2019.

Escrito por Maria Ribeiro (@madduz_ribeiro)
Aluna de educom, viciada em escrever e em entender as pessoas e o mundo. Ouço de tudo, mas meu coração bate mais forte por funk e rap!


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